Mesmo com perfil socioeconômico mais elevado, estudantes de medicina de instituições privadas tiveram desempenho inferior ao dos alunos da rede pública no Enamed, avaliação do Ministério da Educação. A diferença ocorreu em 85 das 90 questões válidas da prova, o equivalente a 94% do exame.
Dos 107 cursos que receberam notas 1 e 2 — consideradas insuficientes —, 87 são de instituições privadas, com mensalidades que podem chegar a R$ 17 mil. Ao todo, 350 cursos tiveram resultados divulgados. Entre os 39 mil participantes, 24,5 mil eram de faculdades privadas e 9.800 de públicas. O índice de desempenho adequado foi de 61% nas particulares, contra 81% nas públicas.
Apesar de mais de 35% dos alunos das privadas terem renda familiar superior a seis salários mínimos (ante 19% nas públicas) e 36% terem mães com ensino superior (31% na rede pública), o resultado foi pior. Especialistas apontam que fatores institucionais, como menor proporção de docentes com doutorado, maior número de alunos por professor e menor tradição acadêmica, influenciam o desempenho.
Levantamento mostra que faculdades privadas criadas após a Lei do Mais Médicos, de 2013, sobretudo em cidades do interior com menos de 300 mil habitantes, concentram os piores resultados.
Em questões específicas, a diferença foi expressiva. Em uma pergunta sobre insensibilidade androgênica, 50,4% dos alunos de instituições públicas acertaram, contra 24,4% das privadas. Em outra, sobre conduta médica diante do luto na atenção básica, o índice foi de 72,6% nas públicas e 55,1% nas particulares.
Diante dos resultados, o MEC suspendeu neste mês o edital para criação de novos cursos de medicina por instituições privadas. Entidades do setor questionam os critérios de avaliação e afirmam que a prova mede apenas uma dimensão da qualidade dos cursos.