A reportagem trata da preocupação crescente sobre o uso prolongado do omeprazol — um dos mais comuns inibidores de bomba de prótons (IBP) — e a possível associação com o surgimento de demência. Embora o medicamento seja amplamente usado no tratamento de refluxo gastroesofágico, gastrite, úlceras e outros quadros de excesso de ácido estomacal, especialistas alertam que seu uso contínuo sem reavaliação médica pode trazer riscos que até então não eram amplamente divulgados.
Segundo neurologistas, gastroenterologistas e revisões de estudos, não há evidência firme de que o omeprazol cause diretamente demência, mas há indícios de que possa contribuir para o surgimento ou aceleração de processos cognitivos em pessoas mais velhas. A hipótese é a de que o uso prolongado de IBPs interfere em mecanismos que protegem o cérebro, como absorção de nutrientes (vitamina B12, por exemplo) ou alterações na flora intestinal que podem afetar o sistema nervoso central.
Dois grandes estudos observacionais realizados na Alemanha, com pacientes acima de 75 anos, mostraram que os usuários regulares de IBPs apresentaram maior incidência de novos diagnósticos de demência ao longo de 6 a 7 anos de acompanhamento — mesmo após ajustes para fatores de confusão como polifarmácia, diabetes, depressão e acidentes vasculares. Mas os autores ressaltam que esses estudos são associativos, ou seja: não provam causalidade — não se pode afirmar que o omeprazol provocou a demência, apenas que existe correlação.
Os riscos parecem estar mais evidentes em usos prolongados — por mais de 2 anos — e em doses contínuas, especialmente em idosos. O medicamento continua considerado seguro quando usado de modo adequado, para indicações corretas, com monitoramento e revisões periódicas. Mas o alerta se dirige para os casos em que o omeprazol se torna uma medicação de uso habitual, sem necessidade clara ou sem que o médico avalie a continuidade.
Os especialistas recomendam que pacientes que fazem uso contínuo conversem com seus médicos para revisar a indicação — verificar se o tratamento ainda é necessário, explorar redução ou interrupção se for seguro, e, se for manter, monitorar níveis de vitamina B12 e outros marcadores nutricionais ou cognitivos. Além disso, reforçam que o risco de demência está apenas potencialmente elevado — não significa que todos que usam o omeprazol irão desenvolver a condição — e que outros fatores de risco (idade, genética, doenças cardiovasculares, estilo de vida) continuam tendo papel central.