Quase metade das doações de órgãos no Brasil são recusadas pelas famílias

O avanço nos transplantes de órgãos no Brasil tem salvado milhares de vidas, mas os números mais recentes também acendem um alerta: ainda há um longo caminho para que a doação de órgãos acompanhe a crescente demanda nacional. “Apesar de o país ter registrado recordes em 2025, o ritmo de crescimento segue abaixo do necessário e a falta de conscientização ainda é um dos maiores obstáculos para transformar potenciais doadores em vidas salvas”, explica a enfermeira líder da Equipe Hospitalar de Doação para Transplantes (e-DOT) do Hospital de Caridade São Vicente de Paulo (HSV), Raíssa Gabriela Fileli.

Dados da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO) mostram que o Brasil alcançou 20,3 doadores efetivos por milhão de população em 2025, superando os 19,2 registrados em 2024. O crescimento, embora positivo, ainda é considerado insuficiente diante das metas projetadas pela entidade, que prevê atingir 22,4 doadores por milhão em 2026 e chegar a 30 até 2028.

O principal desafio continua sendo a recusa familiar. Somente em 2025, foram registradas 4.200 negativas de famílias à doação de órgãos no Brasil, mantendo o índice de recusa em 45%. Na prática, isso significa que quase metade das oportunidades de doação são interrompidas no momento da autorização familiar.

No Hospital São Vicente, foram realizadas 5 captações de órgãos em 2024, com 10 negativas por parte das famílias. Já em 2025, foram registrados 6 doadores e 14 recusas familiares. Entre os principais motivos estão a não manifestação do paciente como doador em vida, receio de demora na liberação do corpo e motivos religiosos.

Para Raíssa, a conversa sobre doação de órgãos precisa acontecer antes de emergências e luto. “Muitas famílias acabam recusando por medo, desinformação ou porque nunca conversaram sobre o assunto dentro de casa. Quando a vontade do potencial doador é conhecida e compartilhada com a família, a decisão tende a ser mais segura e consciente”, destaca.

Além da alta taxa de negativa familiar, outro ponto observado pela ABTO é a redução dos transplantes com doador vivo. Em 2025, os transplantes renais com doador vivo caíram 7,2%, enquanto os hepáticos tiveram redução de 9,6%. Alguns procedimentos ainda não conseguiram retomar os números anteriores à pandemia, como os transplantes pulmonares, pancreáticos e cardíacos.

Conscientizar a população é essencial para mudar esse cenário. “Uma única pessoa doadora pode salvar várias vidas. A doação de órgãos é um ato de solidariedade que transforma histórias e oferece uma nova chance para pacientes que aguardam, muitas vezes por anos, na fila de transplante”, afirma Raíssa.

A profissional reforça ainda que ser doador não exige documentos específicos no Brasil. O mais importante é comunicar o desejo à família. “A autorização para a doação sempre parte dos familiares. Por isso, falar sobre o tema é tão importante. Quando existe esse diálogo, a família consegue respeitar a vontade do ente querido mesmo em um momento tão difícil”, completa a enfermeira.

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