Após quase três décadas dedicadas à pesquisa científica, a bióloga Tatiana Sampaio, do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ, lidera o desenvolvimento da polilaminina, molécula criada em laboratório que pode estimular a regeneração de conexões nervosas em casos de lesão na medula espinhal. Em janeiro de 2026, a Anvisa autorizou o início dos testes clínicos em humanos para avaliar a segurança do tratamento. A decisão marca uma nova etapa na busca por terapias capazes de devolver movimentos a pacientes paraplégicos e tetraplégicos.
A polilaminina é uma versão recriada da laminina, proteína produzida naturalmente pelo organismo e essencial para a conexão entre neurônios. Desenvolvida a partir da placenta humana, a substância foi projetada para atuar diretamente na área lesionada, estimulando a formação de novas ligações nervosas.
Antes da autorização regulatória, a molécula foi aplicada em oito pacientes com lesões graves. Seis apresentaram recuperação parcial de movimentos. Um dos participantes, paralisado do ombro para baixo, voltou a andar sem auxílio. Os resultados ainda exigem confirmação em estudos mais amplos, mas reposicionaram a pesquisa brasileira no debate internacional sobre regeneração neural.
A fase clínica iniciada em 2026 envolve cinco voluntários. O objetivo é avaliar a segurança do medicamento. Só depois dessa etapa será possível avançar para fases que analisem a eficácia em maior escala. O protocolo segue critérios científicos reconhecidos internacionalmente.
A descoberta também gerou impacto financeiro. Em dezembro de 2023, segundo a Agência Brasil, a tecnologia rendeu R$ 3 milhões em royalties à UFRJ — o maior valor já recebido pela universidade até então. O montante foi dividido entre inventores, instituição e o Instituto de Ciências Biomédicas.
Apesar do avanço, a trajetória enfrentou obstáculos. De acordo com a pesquisadora, cortes orçamentários fizeram o Brasil perder a patente internacional da polilaminina. O episódio expôs a vulnerabilidade da pesquisa científica diante da instabilidade de financiamento.
O projeto conta com parceria do laboratório farmacêutico Cristália e apoio da FAPERJ. Paralelamente, Tatiana conduz estudos em cães para avaliar os efeitos da substância em lesões crônicas, ampliando o campo de investigação.
A carreira da cientista começou na própria UFRJ, onde se formou em Ciências Biológicas. Fez mestrado, doutorado e estágios de pós-doutorado na Universidade de Illinois, nos Estados Unidos, e na Universidade de Erlangen-Nuremberg, na Alemanha. Aos 27 anos, tornou-se professora da instituição.
Hoje, aos 59 anos, além de liderar a pesquisa com a polilaminina, Tatiana coordena equipes multidisciplinares, orienta jovens cientistas e atua como sócia e consultora científica da Cellen, empresa dedicada à produção de células-tronco para uso veterinário.
Nos últimos anos, também assumiu papel decisivo na reorganização de projetos científicos na universidade. Linhas de pesquisa interrompidas voltaram a produzir. A quantidade de estudos publicados aumentou. Parcerias internacionais foram retomadas.
Se confirmada nos testes clínicos, a polilaminina poderá representar uma mudança de paradigma no tratamento de lesões medulares, área em que a medicina ainda oferece poucas alternativas além de reabilitação e controle de sintomas.
Tatiana Sampaio reúne inovação científica, impacto social e capacidade de liderança. Sua trajetória combina pesquisa de ponta, formação de novos talentos e compromisso com a ciência pública.
A descoberta ainda percorre etapas rigorosas de validação. Mas, ao reacender a esperança de quem perdeu os movimentos, já colocou o nome da pesquisadora no centro de uma das mais promissoras frentes da medicina regenerativa no País.
Por Robson Chaves